Entrevista com Charles D. Popoff

Entrevista com Charles D. Popoff

Essa última entrevista não é com uma mulher, nem com uma mompreneur, mas em vista do interesse das mães em saberem mais sobre empreendimentos, optamos por conhecer um pouco mais do trabalho desse excelente profissional.

Por Luciene Gasparotto

Charles Popoff* nasceu e morou nos Estados Unidos até os 9 anos. Veio de uma família de origem Búlgara, embora o nascimento do último antepassado nascido lá tenha sido há mais de 200 anos. O idioma continuou sendo falado em sua família até a geração dos seus pais e, infelizmente, desapareceu com ele e sua irmã.

Charles tem formação em eletrônica. Por quase 20 anos trabalhou na area de negócios

locais e internacionais (vendas, depois compras), em empresas como Rohm Corporation, Olivetti, GM e Delphi.

Em 2001, já na Delphi foi convidado a fazer parte da equipe de RH na área de Desenvolvimento Organizacional (Treinamentos, Gestão de Carreiras, Progressão & Sucessão, Gestão de Clima, etc.)
Se apaixonou pela área e então fez seu MBA em Gestão de Pessoas pela FGV.

Alguns anos depois, já no Banco Votorantim, resolveu fazer um ano sabático para reavaliar sua vida pessoal e profissional, e também estudar e se aprofundar em temas de comportamento humano.
Fez sua formação como Coach (no ICI), Metodologia do Ensino Superior (FGV), Qualificação no Instrumento de Inventário de Preferências Psicológicas “MBTI” (Myers-Briggs Type Indicator), além de outros cursos diversos – de filosofia Grega a Hipnose Eriksoniana.

Desde então tem trabalhado como Coach para profissionais e executivos, com Treinamentos e Workshops Comportamentais para grupos além de ministrar Palestras a respeito da convivência humana dentro das empresas e sobre desenvolvimento carreiras.
Como modelo conceitual usa a figura da “Bússola” para auxiliar as pessoas a encontrarem seu “norte” na vida – estimula as pessoas a criarem um “Projeto de Vida” estruturado, a partir dos “pontos cardeais”: Visão e Missão com base em seus Valores e Crenças.

Vamos as perguntas:

Charles, o que voce considera primordial para uma pessoa se lançar ao empreendedorismo?

Antes de mais nada, é preciso ter um claro perfil empreendedor, reconhecer em si o gosto por desafios e principalmente por correr riscos. Daí o passo mais importante é elaborar um Plano de execução consistente e bem estruturado. Não obstante, para muitos potenciais empreendedores isto pode se tornar mais fácil dizer do que fazer.
Muitas pessoas com este perfil podem apresentar dificuldade em manter o foco no desenrolar e especialmente na execução destes planos. Empreendedores podem ser muito “instintivos” ou “intuitivos”, o que é ótimo. Todavia estes aspectos podem afastar o profissional das coisas “chatas” de se organizar e manter a consistência do dia-a-dia do negócio.
Isto inclui organizar-se mentalmente, criando e executando ações que começam do “macro” para o “micro”. Do mais conceitual e abstrato para o mais prático e realizador, a saber:

a)      Visão: Estabelecer uma Visão (quem quero ou aspiro ser – o meu futuro  - como quero ser reconhecido como empresa ou como indivíduo)
b)      Missão: Estabelecer uma Missão (com base nesta aspiração futura, identificar e fortalecer três pilares de existência pessoal ou profissional: Satisfação e Realização, Contribuição e finalmente Recompensa $$$).
c)      Objetivos: claros e fundamentados na realização da Visão e da Missão
d)      Estratégias para a implementação destes objetivos e por fim,
e)      Táticas: Atuar firmemente na realização e execução dos detalhes diários

A falta de um plano bem estruturado é, com certeza, responsável pelo naufrágio de tantos novos negócios e de tantos novos empreendedores no Brasil.
De outro lado, as questões de “Crenças” (o quanto focamos em possibilidades ou em obstáculos…) e de “Valores” (o que é realmente importante para mim) podem determinar sucesso ou fracasso de um empreendimento.
Portanto, considero que organizar um mapa mental e elaborar / executar um bom plano é fundamental para as chances de sucesso sejam reais.

Qual é o seu papel na vida das pessoas que procuram um coach  para lançar-se ao empreendedorismo?
Meu papel é exatamente o de ajudar as pessoas no entendimento dos conceitos que descrevi e sobretudo auxiliar na elaboração deste tipo de plano. Para isto, faço uso de alguns instrumentos para inventariar preferências psicológicas, forças pessoais e aspectos ou competências que precisam ser desenvolvidos, melhorados. Estas metodologias enaltecem fortalezas e ajudam a desviar de armadilhas e sabotagens.
Por exemplo, muitos indivíduos se aprisionam dentro seus próprios “rótulos” de auto imagem, se dizendo “tímidas”, com “defeitos” ou “sou assim mesmo”, etc. As palavras que usamos têm muita força e demonstram muito sobre como conduzimos nossas vidas.
Por isto o processo de Coaching não é de aconselhamento, mas sim de ganho de consciência por parte do Coachee para que ele encontre suas próprias respostas e soluções, escapando de suas próprias armadilhas e se reinventando como indivíduo e profissional.

Quais os elementos que pode levar uma pessoa ao fracasso neste projeto?
Existem questões externas sobre as quais não temos atuação (crises financeiras, mudanças nos rumos do mercado), mas no trabalho de Coaching a ênfase é dada nas questões internas, intrínsecas, pessoas. O processo de Coaching é o de se responsabilizar pela própria vida.
A gente adora reclamar não é mesmo? Na grande maioria dos casos, somos nós mesmos nosso principal algoz.  Não é incomum as pessoas colocarem mais foco nos problemas, nas adversidades e nos obstáculos do que nas oportunidades que todos os problemas trazem consigo.
Um dos papéis do Coach é identificar estas “crenças auto sabotadoras” e trazê-las à consciência do profissional ajudando-o a substituí-las por crenças construtivas que alavanquem a realização de seus propósitos.

Voce também redirecionou sua vida para um outro caminho. Sua experiencia pessoal influi na motivaçao destas pessoas?
Imagino que em muitos casos sim. Sempre é bom ter um exemplo “ao vivo” de que sim, é possível criar uma realidade mais recompensadora. Quando vejo as pessoas sentindo-se numa “sinuca de bico”, eu geralmente faço a seguinte pergunta:
O que você queria ser quando era criança?
Normalmente as pessoas se surpreendem com esta pergunta e as respostas são as mais diversas e não menos surpreendentes. Já encontrei astronautas, médicos, veterinários, cientistas, bailarinos, atrizes, fotógrafos e até lixeiros (até hoje foram 4 “lixeiros” das quais 2 eram mulheres!).
O importante aqui é transformar estas respostas em metáforas de modo a resgatar aqueles sentimentos, aquelas sensações de alegria e prazer e aquela visão de possibilidades que acabaram dentro de alguma “gaveta” emocional, tornando a vida profissional cinzenta, sem cor.
Veja, no meu caso enquanto morava em New York, meu sonho era ser Motorista de Ônibus. Metaforicamente falando, um motorista de ônibus “conduz as pessoas para onde querem chegar”, não é?
Quando me dei conta disto, percebi porque eu jamais havia me sentido tão realizado e feliz profissionalmente, por que é exatamente isto que faço quando trabalho com indivíduos, quando estou em sala de treinamento ou dando palestras.

Como identificar “a hora da virada”?
Costumo brincar que a vida profissional pode ter 3 fases ruins:

a)      Bombeiro – normalmente nos primeiros anos da vida profissional, quando tudo o que faço é “correr atrás do próprio rabo” e “apagar incêndios”.

b)      Refém – esta fase é a mais séria e importante. Quando ingressamos num estado de “não aguentar mais apagar incêndios”, acabamos chegando numa encruzilhada:
Ou eu …“Decido transformar a minha vida em algo interessante e desafiador” …
Ou eu… me rendo à pretensa bola de chumbo que amarrei aos meus pés e me justifico dizendo…. “Ah, mas o plano de saúde da empresa é bom, ainda não paguei o carro ou o apartamento, temos filhos vindo por ai…”
Se nos entregamos a estes pensamentos em que o medo de errar é maior do que a coragem de acertar, eu brinco afirmando que nos colocamos num estado de “Refém” e que inclusive contraímos Síndrome de Estocolmo (quando um seqüestrado passa a gostar do seqüestrador) e nosso discurso passa a ser algo como. “Meu chefe não é tão chato assim, eu é que sou exigente demais…” “Não preciso gostar do meu trabalho, tenho que trabalhar e ajudar a sustentar a casa…”
Com certeza, não há sustentabilidade alguma por apenas “ajudar a sustentar a casa”, não é?

c)      Morto – Ao assumirmos este papel de “refém” por anos a fio, nossos olhos perdem o brilho, nossos corações se transformam em “ameixas secas” e começamos a “morrer” internamente sem perceber.
Nos transformamos em autômatos, trabalhando para pagar as contas e manter um status quo meio cinza e sem graça. Encontramos satisfação nas efemeridades dos iPods e iPads da vida moderna.

A despeito da brincadeira meio sarcástica ao olhar para estas questões, o fato é que cada pessoa precisa mergulhar dentro de si e perguntar se está em uma destas 3 fases.
Se a resposta for “sim”, então é chegada a hora de fazer um plano e transformar a vida cinzenta em algo colorido e com vibração por viver, realizar e contribuir. A remuneração virá certamente com um valor bem maior, real e simbólico.
A grande maioria das pessoas com quem já trabalhei até confessaram sentirem-se como reféns, mas não tinham a menor idéia do que fazer para mudar.
Os indivíduos com um perfil empreendedor identificam e se angustiam muito mais rapidamente com estas situações e têm muito mais disposição para “virar a mesa”. É neste momento que pode entrar a figura do Coach.

Que conselho voce daria para uma pessoa que esta pensando em lançar-se ao empreendedorismo?
Claro que uma avaliação técnica de viabilidade do negócio. Mas, mais importante é que a pessoa faça um exame profundo de consciência se é isto mesmo que se deseja, ou se não é apenas uma fuga desesperada para sair de uma situação pessoal ou profissional desagradável. Sempre encontraremos adversidades e obstáculos, mas se sabemos claramente o que queremos os obstáculos terão uma importância e uma relevância muito menores. Estabelecer objetivos claros nos tira instantaneamente da indolência e do conformismo.
Em segundo lugar, que faça um bom plano de ação para que as chances de sucesso sejam maiores e mais consistentes.

Voce escreveu um livro chamado “Eu me Demito”. Comente um pouco sobre ele.
Na verdade o livro foi terminado e daí contratei uma “Coach” literária para avaliação crítica. Isto resultou numa reorganização de todo o projeto, e seu novo formato está na metade. De qualquer forma, um pouco do espírito do livro está retratado nas respostas que dei aqui. No livro falo sobre o mundo corporativo e da vida das pessoas dentro deste meio. Falo sobre liderança (e a falta dela), gestão, comunicação, conflitos, carreira, mercados e mudanças. Isto tudo com um leve toque de humor. A proposta é que as pessoas reflitam sobre se não está na hora de dizerem “Eu Me Demito” das coisas que não servem para si e suas vidas.

*Training, Workshops, Coaching
Organizational Development

Office –   55-11-4221-5689
Mobile – 55-11-8593-6263
Plascar – 55-11-7954-1717


3 Comments

  1. Luciene, obrigado pela oportunidade de expor minhas ideias e forma de trabalho. Se alguém precisar bater um papo (graças a Deus existe o Skype – cdpopoff)é só me adicionar ou escrever um email!
    Beijão
    Charles

  2. muito bom! as entrevistas foram encerradas com chave de ouro :)

  3. Ufa, muitas informações!

    Realmente o tal do planejamento é essencial, foi um conselho recorrente na maior parte dos textos do especial. Pelo jeito, é sério.

    Interessante a nomenclatura das “fases” ruins e as explicações tão claras. Algumas eu nunca tinha ouvido falar, mas consegui visualizar.

    Achei ótimo o conselho sobre conter o a empolgação típica do empreendedor na fase inicial pra não perder o foco.

    Parabéns à todas e todos os responsáveis pelos textos e publicações!

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